É o que me Resta
Posted by Allan Andreas | Posted on 18:40
Cadê o meu café, onde estão os meus remédios para pressão, porque não se respeita mais um velho? Maldito leite! Me parece que o tempo passou e todos ficaram loucos, não tem respeito, não escutam conselhos, não pensam antes de agir, mas destroem antes de pensar. É por isso que um velho, como eu, não tem mais lugar nesse bairro, nessa cidade, nesse mundo.
O que me resta é colher as lembranças que tenho, e me distrair sozinho nesta cama, odeio ficar sozinho (na cama), mas como velhos debilitados não questionam, faço meu papel e fico quieto.
Ontem, fui até o ponto final para pegar água no caminhão pipa, o bairro ainda tá começando a consumir as lacunas esverdeadas de árvores e gramado rasteiro, por enquanto água na torneira nem pensar. Dizem por ai que o mutirão sai esse ano e tudo melhorará cada qual com seu espaço e cada espaço com seu invasor. O bairro se ergueu entre antigas fazendas pelo menos é o que sussurram nas vielas. Sei lá eu, que fazenda ou que dono... Só sei que marquei meu espaço e daqui não saio, e se me tirarem invado o do lado, e a vida cai de uma casa ilegal para outra.
O mutirão subiu, o bairro cresceu, a água chegou, evolução será? Com tudo veio à diversão, é baile! O caminho pra Mauá é longo, é barro, e escuro, mas vale o esforço, dizem que o baile de Mauá é descolado.
O tempo é a única coisa da qual não fugimos, ele traz mudanças boas e más, apesar de que tudo no mundo nos leva às coisas boas que resultam muitas vezes em coisas más, – quer um exemplo, arrumei uma namorada, linda dezesseis anos, uma vida pela frente. Namoro resulta em beijo, que resulta em intimidade e que resulta em sexo, isso foi à parte boa, porém às vezes sexo resulta em gravidez, essa parte é a ruim.
Eu tinha dezoito ela dezesseis, a vida parou, trabalho era prioridade. Quando se trabalha desesperadamente nem se vê o tempo passar, mas o tempo lhe engole. Tudo aqui mudou os comércios tomaram conta do lugar, assim como as invasões, ainda mais com essa história de indenização da prefeitura. O transporte coletivo cresceu, tem até escola particular, o concreto tomou conta do verde, assim como manda uma boa evolução.
Com isso aumentou a diferença social, pobreza à mostra, violência é só conseqüência, medo de andar nas noites, baile nem pensar, vai ficar só na memória, principalmente por que tenho um filho. Os filhos crescem, com o meu não foi diferente, dei boa educação, oportunidade de estudo, aqui mesmo no colégio particular do bairro, e sempre pensei, – quando eu ficar velho esse menino cuida de mim.
Como acabo de dizer, pensei, hoje é meu último dia nesse bairro, vou para um asilo, não por vontade própria, meu filho arrumou uma noivinha, eu incomodo, por isso me colocou pra fora.
Sentirei saudades desse bairro, foram tempos difíceis, mas vi o bairro crescer, assim como um filho, claro que ainda não está totalmente formado, eu diria que é um jovem com vontade de crescer, foram lágrimas e risadas, tenho certeza que minha mulher também acharia isso, que Deus a tenha.
É, o carro do asilo chegou, parece que é hora de me despedir, vou sentir falta mesmo é da brisa da tarde que sopra lá do Morro do Cruzeiro, vou ter que me acostumar com o cheiro de mofo do asilo, é o que me resta.

Sabe, pra quem ler os textos desse jovem escritor, um jovem escritor que tenho por amigo, filho, parceiro... e tanto outros adjetivos, eu posso dizer com toda segurança que adoraria ao meus 16 anos... o que faz muito tempo, ter a mesma carga significativa, filosófica, literária e poética que encontro nesses escritos, e o que mais me comove é que não há no autor pretensões de ser autor, escritor... talvez ai esteja o verdadeiro sentido do DOM, escrever sem pretensão de ser... apenas ser... SER.
Espero que entendam isso...
Allan que pena eu não ser você.
Flávio Mello